Produced by or under license of Sega Enterprises Ltd.

Quem  comprou (ou ganhou) seu primeiro Mega Drive após 1991, provavelmente reconhecerá a frase PRODUCED BY OR UNDER LICENSE OF SEGA ENTERPRISES LTD. Escrita em letras brancas sobre um fundo preto, ela aparece toda vez que o console é ligado com algum cartucho inserido nele.

Tela de boot do Mega Drive
Mensagem que aparece quando o Mega Drive é ligado (TMSS)

O que muita gente não sabe é que existe toda uma história por trás dessa simples mensagem. São acordos comerciais e brigas nos tribunais que fariam inveja a qualquer thriller jurídico.

O sucesso inicial do Mega Drive

Em 1989, a SEGA lançou, com sucesso, o Genesis (Mega Drive) nos Estados Unidos. Uma campanha de marketing agressiva entitulada GENESIS DOES WHAT NINTENDON’T enfatizava as vantagens do novo console sobre o NES que, antes desse lançamento, chegou a deter 90% do mercado americano de videogames. Conversões de Arcade quase perfeitas (para os padrões da época), jogos de esporte realistas, ação rápida e sem censura: não demorou muito para que vários jovens, crescidinhos demais para o puritanismo da Nintendo, adotassem o Genesis como seu console definitivo.

Comercial de TV do Sega Genesis em 1990

Esse sucesso inicial colocou a SEGA numa posição de vantagem. Empresas que quisessem fazer jogos para o Genesis teriam que negociar acordos de licenciamento nada vantajosos. Nada muito diferente do que a Nintendo já fazia, para o horror dos desenvolvedores. Dessa vez, contudo, eles não deixariam barato.


Antigo logotipo da Electronic Arts

A Electronic Arts, uma das principais produtoras de jogos para computadores do mundo na época, havia decidido entrar no mercado de videogames. Seu fundador, Trip Hawkings, ficou empolgadíssimo com o poder do Mega Drive. Com ele, seria possível converter os sucessos do Amiga e do Macintosh sem perda de qualidade. Porém, ele estava decidido a não aceitar os termos draconianos impostos pela SEGA e resolveu tomar uma atitude: fazer a engenharia reversa do console e lançar seus próprios cartuchos, sem o consentimento da fabricante.

É claro que a SEGA não deixou barato. Seus executivos ameaçaram a EA com ações judiciais e coisas que fariam até Don Corleone tremer nas bases. Nada disso foi suficiente para assustá-la. Naquela época, a Electronic Arts já era uma gigante. Não demorou muito para que a SEGA baixasse a bola.

Em junho de 1990, finalmente, ambas as empresas chegariam a um acordo. As dificuldades enfrentadas em atrair desenvolvedoras de alto nível como a Konami e a Capcom pesaram e a SEGA chegou a conclusão que era melhor se aliar a Electronic Arts do que deixá-la livre para negociar com a concorrência. O resultado foi fantástico para a empresa de Hawkings, que já havia mostrado seu poder ao lançar Budokan e Populous sem licença antes: eles teriam total autonomia para produzir e fabricar seus próprios cartuchos. Por conta disso, os jogos americanos da EA tinham formato e embalagens diferentes de seus pares.

Desert Strike, jogo da EA – Exemplo de formato diferente de cartucho

A pressão deu resultado. John Madden Football, lançado ainda em 1990, liderou a lista dos jogos mais vendidos do console por vários meses e foi um dos principais motivos para a compra do Genesis naqueles tempos. Outros títulos da EA como Desert Strike, Road Rash e NHL Hockey também colaborariam para o sucesso do console. No fim, a SEGA também saiu vencendo com o acordo.

A Accolade, sem o mesmo poder de fogo, não teria a mesma sorte.

SEGA vs. Accolade – A batalha nos tribunais

A Electronic Arts não foi a única desenvolvedora a conseguir fazer a engenharia reversa do Mega Drive com sucesso e lançar seus próprios jogos. A Accolade, outra empresa americana, fez o mesmo. Todos os cartuchos lançados por ela em 1990 não eram licenciados.


Logo da Accolade em 1990

Isso deixou a SEGA bastante preocupada. Um console com a proteção quebrada era garantia de grandes prejuízos. A Nintendo já havia sentido isso nos anos 80 ao ver desenvolvedores piratearem os cartuchos do Famicom na China, em Taiwan e na Coreia. Se eles não fizessem alguma coisa, qualquer empresa de fundo de quintal acabaria fabricando seus próprios cartuchos sem pagar um tostão à fabricante do Mega Drive.

Na feira de eletrônicos CES (Consumer Electronics Show) de 1991, a SEGA apresentou uma nova revisão no hardware do seu console de 16 bits. Além de baratear os custos de produção, ele conteria um chip extra conhecido como TMSS (Trademark Securiy System, Sistema de Segurança da Marca Registrada em português).

Ishido: Way of the Stones (Accolade, 1990)

Seu funcionamento era simples: o sistema buscaria por uma frase com o copyright da SEGA escrita em um ponto determinado da memória do cartucho. Caso ela não estivesse presente, o console se recusaria a rodar o jogo. Para demonstrar que o chip de segurança funcionava, usaram um cartucho da Accolade, Ishido: Way of the Stone.

A Accolade tentou contornar essa barreira ao incluir esta frase nos seus jogos. Essa atitude, porém, dava base jurídica para que a SEGA iniciasse um processo por infração de direitos autorais e uso não autorizado de sua marca registrada. E assim começava uma longa batalha nos tribunais. Em 31 de outubro de 1991, a SEGA entraria na Justiça contra a Accolade.

No mês seguinte, a Corte deu ganho de causa, em primeira instância, para a SEGA. O argumento de que a Accolade estaria violando sua marca registrada e confundindo os consumidores fazendo-os pensar que estavam adquirindo um produto licenciado conseguiu convencer os juízes. Com isso, todos os jogos da Accolade teriam de ser retirados das lojas e ela teria de arcar com uma pesada indenização.

Porém, eles recorreram, com base nos princípios do Fair Use (uso justo), que permite o uso de material protegido por direitos autoriais sob certas circunstâncias, como o uso educacional (incluindo múltiplas cópias para uso em sala de aula), crítica, comentário, divulgação de notícia e pesquisa.

Essa argumentação foi aceita pela Nona Corte de Apelação, que deu vitória a Accolade. O Juiz considerou que somente as partes do código necessárias para colocar o jogo em funcionamento foram utilizadas e que, sem o uso delas, não seria possível rodá-los. E que esse tipo de ferramenta de bloqueio não é protegida pela lei de Direitos Autorais. Semelhante decisão, por sinal, considerou recentemente que fazer o Jailbreak no iPhone não era um ato ilegal.

Apesar disso, o chip de segurança (TMSS) continuou presente em todos os Mega Drives lançados a partir de 1991. E como a SEGA mexeu em outras partes do console para barateá-lo, muitos jogadores perceberam que a qualidade de som e vídeo dos novos videogames era ligeiramente inferior. Além disso, eles não rodam os jogos da primeira fornada da EA (Budokan, Zany Golf e Populous) e da Accolade, diretamente afetados pelo chip.

Vale lembrar que as versões brasileiras desses mesmos jogos não são afetadas, pois todos os títulos produzidos pela Tec Toy no país tem licença da SEGA e rodam em qualquer console oficial lançado nos anos 90.

Como eu sei se o meu Mega Drive possui essa trava?

Todos os consoles lançados antes de 1991 não tem a trava de segurança e, por conta das outras mudanças que a SEGA fez no hardware, possuem um chip de som com qualidade consideravelmente maior.

Embora a diferença não seja muito grande, ela é perceptível. Os vídeos abaixo demonstram essa depreciação entre os modelos mais antigos e recentes do console.

Diferenças na qualidade de som entre o primeiro modelo do Mega Drive e os subsequentes

Para saber se um Mega Drive americano faz parte da primeira revisão é simples: procure pela frase “HIGH DEFINITION GRAPHICS”, encontrada na parte superior do círculo que ronda a entrada para os cartuchos. Se ela estiver presente, o próximo passo é verificar a traseira do console. Procure pela saída EXT. Caso o aparelho a possua, estará diante do primeiro modelo do console, com melhor qualidade de vídeo e som.


High Definition Graphics (detalhe do Sega Genesis)



Saída EXT na traseira do Genesis americano (destaque em vermelho)

Nas versões japonesas, as frases a ser procuradas são diferentes: “AV Intelligent Terminal” e “High Grade Multipurpose Use”, ambas dispostas no mesmo círculo, em volta da lâmpada (LED) que mostra se o console está ligado ou não.

AV Intelligent Terminal / High Grade Multipurpouse Use (Mega Drive japonês)

Vale lembrar que isso só vale para os primeiros modelos do console, maiores e com a frase 16-bit próxima a entrada de cartuchos. Todos os aparelhos da segunda versão, conhecida no Brasil como Mega Drive III, possuem o chip TMSS e qualidade inferior de áudio e vídeo.

Caso tenha um nível razoável de inglês e queira saber mais detalhes sobre as diferentes versões do console, veja esse excelente artigo no fórum do excelente SEGA-16.comhttp://www.sega-16.com/forum/showthread.php?7796-GUIDE-Telling-apart-good-Genesis-1s-and-Genesis-2s-from-bad-ones.

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5 comentários em “Produced by or under license of Sega Enterprises Ltd.

  1. o meu console esta escrito SEGA GENESIS com botão reset BRANCO mais não essa saida EXT então nesse caso o meu video game não é americano ??

    • William, o seu modelo é um modelo revisado, não o primeiro modelo. Genesis é o “Mega Drive” nos EUA, apenas o resto do mundo, incluindo Brasil, tem o nome Mega Drive. Logo então, seu modelo é americano.

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