Sega Channel: melhor que o pacote da HBO

Todo mundo sabe que, fora uma ou outra exceção, a TV aberta nunca foi sinônimo de qualidade. Qualquer um que tenha um dinheirinho a mais fará o possível para fugir de Faustões e Datenas e entrar num novo mundo, povoado por canais como Warner, FOX, Cartoon Network ou o Discovery. A TV a cabo é a salvação para quem deseja usar seu televisor para alguma coisa além de assistir a filmes em DVD/Blu-Ray ou jogar videogame.

Quem é mais afortunado e pode bancar mensalidades que beirem os R$ 200 pode até escolher luxos especiais, pagos a parte: jogos do campeonato brasileiro, pacotes de filme do HBO ou do Telecine, filmes eróticos de canais como o SexyHot ou o ForMen, há opções para todos os gostos. Os americanos dos anos 90 tinham uma alternativa ainda melhor: o Sega Channel.

Mas, afinal, o que era o Sega Channel?

Logotipo do SEGA Channel

Usar o cabo para transmitir jogos de videogame não era uma ideia tão nova assim, mesmo para os padrões dos anos 90. Consoles como o Atari 2600 e o Mattel Intellivision tiveram serviços semelhantes por volta de 1982. Porém, nada semelhante foi tentado novamente até a SEGA investir no SEGA Channel.

Devia ser uma alegria só quando esse cartuchão chegava pelo correio

Se a sua operadora disponibilizasse o seriço, tudo o que você precisaria fazer para assiná-lo era pagar uma taxa de inscrição de US$ 25 mais uma mensalidade que variava entre US$ 12 e 20, dependendo da localidade. Feito isso, chegaria a sua casa um “cartuchão“, um trambolho do tamano do 32X, para ser plugado no seu Mega Drive (Sega Genesis). Ele funcionava de modo similar ao dos cable modems modernos (quem é assinante da NET sabe do que eu falo): o cabo se conectava à traseira do dispositivo e enviaria o sinal para o console, intermediado pelo acessório.

Outro modelo do Sega Channel, com seu cabo e adaptador AC

Os primeiros testes foram realizados no decorrer do ano de 1993 e tiveram grande sucesso. No final do mesmo ano, duas operadoras de TV a cabo (TCI e TimeWarner) começaram a oferecer o serviço nos grandes centros dos EUA. Quem tivesse a sorte de morar dentro da área de cobertura receberia um pacote e tanto: o Sega Channel oferecia nada menos que 50 jogos diferentes, substituídos a cada mês, ao assinante. E não era preciso pagar nenhuma taxa adicional para baixá-los. Era só escolher um deles e esperar o download ser feito.

Nem tudo eram flores, porém. O serviço dependia de uma conexão limpa e sem ruídos para funcionar, o que não era muito comum nos tempos do cabo analógico. Ou seja, não era incomum ter de recomeçar os downloads por conta de um erro no meio do processo. E os jogos ficavam guardados na memória do “cartucho” do Sega Channel apenas enquanto o Mega Drive estivesse ligado. A partir do momento em que o console fosse desligado, adeus jogo. A única alternativa era baixá-lo de novo.

 
Clique na propaganda para ver a lista de jogos disponível em agosto de 1997

Quem pensa, contudo, que o catálogo oferecia apenas joguinhos básicos como os do Mega Modem japonês discutidos em “O Mega Drive também se conecta à internet!“, em muito se engana. Tudo que havia de melhor no console estava disponível. Sonic, Phantasy Star, Streets of Rage, Mortal Kombat, NBA JAM, praticamente todos os clássicos, de todos os gêneros, estavam lá.

E os benefícios não paravam por aí. Demos de jogos que estavam para ser lançados também eram oferecidos. Primal Rage, por exemplo, apareceu no Sega Channel em versão limitada dois meses antes de chegar às lojas. Outras novidades também chegavam na seção “Test Drives” do Sega Channel para que o jogador pudesse experimentá-las antes de comprar a versão em cartucho (ou correr até uma locadora).

Além disso, havia outros mimos. Versões exclusivas de jogos como Earthworm Jim e Garfield apareceram, apenas, no Sega Channel. Títulos que nunca foram lançados nos Estados Unidos também deram as caras por lá: Pulseman, Alien Soldier e Megaman – The Wily Wars são apenas alguns exemplos. Era diversão para fã nenhum do Mega Drive botar defeito!

Sega Channel em funcionamento

O serviço também foi oferecido fora do território americano. A TCI, dona da Cablevisión, chegou a trazê-lo para a Argentina e para o Chile. Além disso, canadenses, britânicos e australianos também puderam conferir essa maravilha.

Nós, brasileiros, ficamos a ver navios dessa vez. Nos anos 90, TV por assinatura nesse país era privilégio das classes A e B (GatoNET é um fenômeno bem recente). E as únicas opções disponíveis, para a maioria, eram via satélite. O cabo, analógico e cheio de ruídos no sinal, estava presente apenas nos bairros mais abastados das grandes metrópoles. O fato de a TCI e a Time Warner não terem concessões no Brasil também diminuia as chances do Sega Channel chegar ao Brasil. Por conta disso, nem mesmo a velha e boa Tec Toy dos anos 90 conseguiu nos trazer esse belíssimo serviço.

Infomercial (propaganda no estilo do Polishop) do Sega Channel – Seus problemas acabaram!

No seu auge, o Sega Channel chegou a contar com o espantoso número de 250 mil assinantes. Promoções envolvendo jogos como Primal Rage e Triple Play 97 davam prêmios aos melhores jogadores e movimentavam públicos que ultrapassavam a casa dos 10 mil. Porém, como tudo que é bom dura pouco, o fim do ciclo do Mega Drive acabou matando o serviço. Em 31 de julho de 1998, o Sega Channel sairia do ar.

Uma pena que ideias semelhantes não vinguem mais. Com a popularização da internet em banda larga, não há motivos para usar um sistema rudimentar como o Sega Channel hoje em dia. Porém, o conceito é fantástico: cobrar uma pequena assinatura mensal e oferecer uma coletânea de títulos populares em troca poderia ser uma grande arma para acabar com a pirataria. Principalmente em países como o Brasil, onde a altíssima e injusta carga tributária deixa o preço dos jogos proibitivo para mais de 90% da população.

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Um comentário em “Sega Channel: melhor que o pacote da HBO

  1. Nossa! Como gostaria de ter usado esse Sega Channel, nessa época tinha TV por assinatura em casa, mas era por microondas (MMDS) que e usava uma antena, só alguns anos depois que o cabo da NET chegou na minha rua…

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