Como Desert Strike foi criado?

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Os Estados Unidos tem lutado nesses últimos 8 anos para tentar colocar alguma ordem no caos que se instalou no Iraque desde a invasão em 2003. Bilhões de dólares foram gastos, vários soldados já morreram e, ao que parece, a briga contra as diversas facções e grupos terroristas que atuam nessa área não acabará tão cedo, a despeito da morte de Osama Bin Laden.

Helicóptero Apache sobrevoa o deserto

No Mega Drive, porém, a vida era bem mais fácil. Bastava um helicóptero Apache pilotado por um destemido piloto para colocar ordem em toda a região do Golfo Pérsico. Desert Strike foi revolucionário em 1992, quando foi lançado. Nunca antes, um jogo de guerra para consoles deu tanta liberdade ao jogador, forçando-o a pensar estrategicamente, administrar recursos e completar missões a tempo.

O criador da série, Mike Posehn

Mike Posehn, criador de Desert Strike

Mike Posehn se formou em Engenharia Mecânica pela Universidade da Califórnia, Câmpus de Berkley, em 1966. Alguns anos depois, chegaria a obter um PhD nessa mesma área. Nesses anos de faculdade, ele alimentou outro interesse: a programação de computadores. Após aprender os detalhes nos cartões perfurados daqueles rústicos computadores dos anos 70, passou a produzir seus próprios softwares como forma de complementar a renda.

Com a revolução dos microcomputadores, ocorrida no final dos anos 70 nos EUA, seus programas, comercializados através de propagandas colocadas na revista Byte Magazine, começaram a vender mais e mais. De repente, os lucros eram tamanhos que ele poderia viver apenas deles.

A pequena empresa montada por Posehn chamou a atenção da Electronic Arts, que já era respeitada no setor em 1984. E, com isso, ele passou a desenvolver software para a EA. O gerenciador pessoal criado por ele, Get Organized, não fez muito sucesso na época, mas mostrava bem seus dotes como programador.

Deluxe Video para Commodore Amiga

Deluxe Video, um dos primeiros softwares de edição de vídeo, foi criado por ele para os computadores Amiga após sua saída da EA. As vendas foram tamanhas que Posehn conseguiu negociar seus direitos por uma considerável quantia.

O próximo desafio eram os jogos de computadores. A experiência como engenheiro mecânico fazia-o com que buscasse o máximo de realismo. Chegou a iniciar um projeto de um simulador de voo, intitulado Fly, em conjunto com a IBM no final dos anos 80. O produto não chegou a ser lançado, mas não passaria em branco dentro da Electronic Arts, que o chamou para desenvolver um jogo para a nova máquina da SEGA, o Mega Drive.

Desert Strike começa a sair do papel

A Electronic Arts que Mike Posehn encontrou em 1990 era bem diferente daquela que havia trabalhado em 1984. O ambiente corporativo já tomava conta do cenário, com vários funcionários, prazos apertados, horas extras e muita pressão.

Antigo logotipo da Electronic Arts

Trip Hawkings, fundador da EA, sugeriu que fosse criado um jogo similar a Choplifter, um dos grandes clássicos dos anos 80. Inicialmente criado para o Apple II, ele ganharia versões pra praticamente todos os computadores e consoles de 8 bits, incluindo uma feita pela SEGA para o Master System. Nesse título, o jogador encarna um piloto de helicóptero que precisa resgatar reféns num cenário de guerra.

Capa de Choplifter (Apple II), 1982

O conceito de Desert Strike envolvia veículos animados em um campo de jogo isométrico. Os desenvolvedores pretendiam incluir “filminhos” entre as missões similares aos que chamavam a atenção do público em Ninja Gaiden, clássico para o NES. O projeto inicial ia além: seria criado um sistema de pontos que avaliava cada ação do jogador de acordo com o impacto político e econômico que ela pudesse ter no cenário. A destruição de templos religiosos ou construções civis, por exemplo, poderia render pesadas punições ao jogador. Porém, essa ideia não pôde ser levada para o jogo final.

Cutscene de Ninja Gaiden (Tecmo), 1989

Desde o começo, contudo, a intenção foi a de criar um jogo com cenário aberto. As missões poderiam ser realizadas em qualquer ordem e o jogador teria a chance de explorar o cenário em busca de objetivos paralelos. Foi desenvolvido um sistema, conhecido como SNAFU, que permitiria ao jogo tomar nota das ações de quem estivesse no comando e registrá-las de acordo com uma intrincada coletânea de desafios possíveis. Muitas variáveis eram levadas em consideração para indicar o sucesso ou o fracasso nas missões. E isso tornava Desert Strike relativamente diferente de tudo que existia naqueles tempos para consoles caseiros.

Desert Strike: um mapa pra explorar, missões pra cumprir

Outra tecnologia utilizada, que ficaria bem mais popular no futuro em jogos como Donkey Kong Country, foi a utilização de gráficos pré-renderizados. Todos os veículos do jogo foram modelados em 3D e digitalizados para o formato padrão do Mega Drive, conferindo um aspecto consideravelmente realista a eles. O mesmo não foi feito, porém, com as construções e planos de fundo, criados através do método clássico da pintura de pixels (os pequenos quadradinhos que formam uma imagem).

Uma decisão que Mike Posehn precisou lutar para convencer os diretores da EA foi quanto ao método de controle. Ao contrário do que acontecia na maioria dos jogos, ele queria que o helicóptero se movesse de uma forma realista. Ou seja, nada de paradas repentinas no ar ou curvas feitas em ângulos de 90°. Esse complexo sistema, que utilizava o ponto de vista do piloto e não o da câmera, como é comum em videogames, acabou sendo, por fim, incorporado ao jogo.

Kilbaba, o vilão de Desert Strike

Inicialmente, Desert Strike seria lançado como Beirut Breakout e se focaria na Guerra Civil do Líbano. Porém, o estouro da Guerra do Golfo, em 1991, fez com que os desenvolvedores mudassem o cenário do jogo. O vilão, Kilbaba, foi modelado em torno do antigo ditador iraquiano, Saddam Hussein. E ele se vingaria da derrota atacando seus vizinhos com mísseis nucleares, provocando a Terceira Guerra Mundial.

Todo o espaço de um cartucho de 8 Megabits foi utilizado. Desert Strike seria, na altura de seu lançamento, em 1992, um dos jogos que levaria o hardware do Mega Drive mais próximo do seu limite. Embora não fosse um título tão impressionante em matéria de gráficos e sons, ele possui um cenário aberto com vários elementos funcionando independentemente do jogador. Conceitos que são famosos hoje por conta de jogos como Grand Theft Auto e Battlefield já eram incorporados lá atrás, num rústico sistema de 16 bits.

Cutscene de Desert Strike

O lançamento e a repercussão

Desert Strike foi um sucesso de público e crítica após seu lançamento, realizado em fevereiro de 1992. A grande maioria das revistas da época deu notas que variavam entre 8 e 9. E as vendas foram assombrosas: o jogo se tornou no mais vendido da história da Electronic Arts na época. Considerando que a empresa já tinha lançado vários títulos relativamente populares como John Madden Football, Populous e Road Rash, esse era um belo feito para um cartucho que exigia mais do jogador que seus concorrentes.

Caixa brasileira de Desert Strike

Muitas pessoas, porém, se sentiram incomodadas com o timing do seu lançamento. Desert Strike foi lançado poucos meses após o final da Guerra do Golfo. E muita gente sentiu que a Electronic Arts estava tentando capitalizar em cima do conflito. Como a Konami aprenderia mais pra frente, quando teve seu Six Days in Fallujah cancelado, investir em conflitos contemporâneos sempre gera grande polêmica. Por conta disso, a maioria dos jogos enfoca-se na Segunda Guerra, no Vietnã ou em disputas fictícias.

A coisa chegou ao ponto de cópias do jogo serem queimadas em uma manifestação de familiares dos soldados mortos durante a Guerra do Golfo.

Porém, nada disso impediria que Desert Strike desse bons resultados. O jogo recebeu conversões para todos os computadores e consoles disponíveis na época. E, 12 anos depois, ainda ganharia um remake para o Game Boy Advance.

Além disso, gerou várias continuações (Jungle Strike, Urban Strike, Soviet Strike e Nuclear Strike) e era uma das franquias mais badaladas da EA nos anos 90.

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