Em nome do Pai: A cena gospel do Mega Drive

O mercado de produtos direcionados ao público cristão cresce a cada dia que passa. Cantores gospel vendem milhares de CDs e DVDs, livros de auto-ajuda com embasamento bíblico se tornam best-sellers e outros produtos como roupas, filmes, brinquedos e objetos de decoração inundam as lojas especializadas no gênero. Tendo em vista que mais de 70% da população segue alguma variante do cristianismo, espaço para expansão é o que não falta.

Nos Estados Unidos, essa cena é ainda maior. E inclui até jogos de videogame. Sim! Embora a maioria deles não seja muito diferente dos títulos seculares e mude-se apenas a ambientação, eles existem. E o Mega Drive recebeu 4 deles, por intermédio de uma desenvolvedora chamada Wisdom Tree. Será que esses cartuchos conseguirão provar ao pastor Jose Yrion que videogames não são coisas do demônio? É o que veremos.

De Color Dreams a Wisdom Tree

Nos anos 80, a Nintendo tinha uma política bastante rígida de licenciamento. Apenas desenvolvedoras poderosas como Konami, Namco ou Capcom tinham recursos o suficiente para passar por todo o árduo processo de aprovação e encomendar o mínimo de 10 mil cópias exigidos pela fabricante japonesa. Como o NES possuía um chip de autenticação (o 10NES), as produtoras independentes não tinham a menor chance caso não apelassem à engenharia reversa.

Várias empresas tomaram esse caminho. A mais conhecida delas, a Tengen, lançou títulos do naipe de Tetris, After Burner e Gauntlet por esse meio para o NES. Porém, havia outras desenvolvedoras menores fazendo a mesma coisa. Uma delas era a Color Dreams.

Color Dreams, logotipo

Fundada em 1988, essa companhia foi responsável por títulos de baixíssima qualidade como Baby Boomer, bastante conhecido por sua ruindade pelos fãs da Nintendo, Captain Comic, Robo Dreams e Crystal Mines. Seus cartuchos eram produzidos por conta própria e tinham formato e cor diferentes do padrão do NES. No começo, eles conseguiram vender alguns deles para pobres pais desavisados.

Captain Comic (Color Dreams), em versão brasileira para Phantom System

Porém, a Nintendo não deixou barato. Ameaçou descredenciar qualquer loja que comercializasse títulos não autorizados por ela. Como deixar de vender os principais jogos de NES estava fora de questão, desenvolvedoras como a Color Dreams viam-se sem saída.

Ao mesmo tempo, perceberam nos evangélicos um crescente mercado. Em 1990, já havia milhares de livrarias cristãs no território americano. A maioria delas vendia apenas produtos gospel independentes e não colocava nenhum conteúdo secular em suas prateleiras. Caso a Color Dreams conseguisse um meio de convencê-los a colocar seus produtos nas lojas, encontraria um filão onde não poderia ser ameaçada pela Nintendo. Bingo!

Logotipo da Wisdom Tree

Assim, foi criada a Wisdom Tree. Todos os antigos jogos foram reconvertidos para temas bíblicos e a empresa passou a se focar nesse mercado. Seu primeiro título depois da mudança, Bible Adventures, chegou a vender 350 mil cópias. Isso os incentivou a continuar produzindo cartuchos baseados em histórias ou temas cristãos. Bible Buffet, Exodus, King of Kings, Sunday Funday, Joshua e Spiritual Warfare seriam lançados, nos anos seguintes, para o NES.

Bible Adventures (NES)

E eles não parariam por aí. O sucesso do Sega Genesis (um console com nome bíblico) nos EUA motivou-os a converter quatro desses jogos para o 16 bits da SEGA.

Os jogos bíblicos do Mega Drive

Exodus, tela título

O primeiro jogo da Wisdom Tree a ser convertido para o Mega Drive foi Exodus: Journey to the Promised Land (Êxodo: Jornada até a Terra Prometida), lançado em 1993. Quem espera, porém, um belíssimo jogo de ação que mostre a fuga dos israelitas do Egito se frustrará. Não há fases que mostrem o lançamento das dez pragas, Moisés escapando das tropas do Faraó ou a abertura do Mar Vermelho. Na verdade, todas as telas são parecidas.

Sua missão, aqui, é recolher todo o maná (vasos com a letra M) e coletar 5 interrogações espalhadas pelas fases. Feito isso, correr até a saída sem ser atingido pelos emissários do Faraó ou pelos Cheetos Bola gigantes. Para que Moisés se movimente, ele deverá limpar toda a área de uma areia estranha que domina todos os cenários. Ao terminar a fase, o jogador responderá 5 questões bíblicas e poderá descobrir que não foram os astecas que escravizaram o povo de Israel. Emocionante!

Recolha o maná (M) e fuja dos Cheetos gigantes

Joshua: The Battle of Jericho (Josué: a Batalha de Jericó) foi lançado logo em seguida. Apesar do título pomposo, você não destruirá aqui as muralhas de Jericó com suas trombetas. Na verdade, o jogo é igual ao Exodus. Só mudam os sprites (“bonecos”) dos inimigos e os itens a ser coletados. Ou seja: a areia estranha e as perguntas bíblicas estão todas lá. Por sinal, os inimigos de Josué são iguais a ele, com cor diferente. E poderiam, muito bem, chamá-lo de Jesus, pois ele anda com vestes brancas e barbas longas. Santa criatividade!

Capa de Joshua (Mega Drive)

Joshua: qualquer semelhança com Exodus não é mera coincidência

Porém, os outros dois jogos lançados pela Wisdom Tree são os grandes clássicos da empresa: Spiritual Warfare (1994) e Bible Adventures (1995).

Ao contrário dos outros jogos, Spiritual Warfare não se passa nos tempos bíblicos. O jogador está na pele de um missionário que, nos dias atuais, tenta converter o máximo de pessoas para o cristianismo. Porém, esqueça dos longos debates sobre a Bíblia e de outras estratégias de evangelização. Agora, você tem a “fruta do espírito”. Basta atirá-la nos infiéis que eles se arrependerão de seus pecados na hora. Já pensou no que aconteceria caso as Testemunhas de Jeová tivessem semelhante arma?

O pacote completo de Spiritual Warfare

O jogo lembra bastante o primeiro The Legend of Zelda com seus elementos de aventura/RPG. Prepare-se para explorar mapas (a cidade onde o coitado do missionário mora é pior que muita floresta e calabouço) e enfrentar infiéis chatos como os punks e os skinheads. E lembre-se de estar com seus conhecimentos bíblicos em dia. Pois será respondendo a perguntas sobre o livro sagrado do cristianismo que você conseguirá comprar itens importantes, além de recarregar sua energia.

Você já viu tela parecida antes.

Essa cidade é mais perigosa para um cristão que Islamabad

Finalmente, temos The Bible Adventures. Esse cartucho possui  3 jogos diferentes, todos baseados em histórias cristãs conhecidas e com jogabilidade similar a de Super Mario Bros 2, do NES.

Em Baby Moses, o jogador assume o papel da mãe de Moisés. Ela precisará atravessar todo o território egípicio, repleto de inimigos, para salvar seu filho da morte certa. A criança é carregada como se fosse um galão de água (“lata d’água na cabeça”) e precisa ser protegida dos perigos existentes nas fases. A jogabilidade é fraca, os comandos não respondem direito e o design das fases é bem frustrante. Deus não quer que você tenha vida fácil.

Bebê Moisés na cabeça, mas que beleza

O segundo jogo incluso em Bible Adventures é Noah’s Ark. Aqui, o personagem principal é Noé (não é o mesmo Noah de Phantasy Star I). Sua missão é encontrar todos os animais espalhados pela fase e carregá-los até a arca. E não pense que eles querem ser salvos do dilúvio não. Vão te atacar como inimigos comuns. Só depois de derrubá-los que Noé poderá resgatá-los da ira divina.

Noé, campeão olímpico de Levantamento de Peso

David and Goliath segue o mesmo esquema. Você deve recolher várias ovelhas e levá-las até um lugar seguro, de modo similar ao que acontecem em Noah’s Ark. Após fazer esse processo repetidas vezes, chegará a hora de enfrentar o gigante Golias. Assim como na história bíblica, será necessário acertá-lo na testa. Parece simples, mas os controles do jogo são tão “bons” que o jogador só consegue isso na base da sorte, depois de atirar milhares de pedras.

Davi saltando um abismo com 4 ovelhas na cabeça

Quem pensa que esses jogos foram adaptados para o público casual em muito se engana. Eles são repletos de fases confusas, inimigos chatos e obstáculos frustrantes. É necessário possuir a paciência de Jó (não usaram-no em nenhum dos jogos, buá!) para terminá-los. Além, claro, de não ter faltado a uma aula da escola dominical (ou do catecismo, no caso dos católicos).

A Wisdom Tree ainda existe (sim, é isso mesmo!)

Qualquer um imagina que uma desenvolvedora que possui apenas jogos toscos no currículo esteja, hoje em dia, fadada aos arquivos da seção de falências e concordatas dos cartórios. Porém, assim como a Tectoy, a Wisdom Tree ainda resiste bravamente.

E – pasmem! – ainda vende os mesmos jogos de NES e Mega Drive nos dias de hoje. Além de vários títulos tão bons quanto para PC. Visite o site deles e veja por si mesmo.

Porém, para uma coisa eles serviram. Um dos episódios mais hilários do Angry Videogame Nerd trata justamente dos jogos bíblicos. Dê uma olhada no vídeo abaixo, com legendas em português:


Anúncios

Um comentário em “Em nome do Pai: A cena gospel do Mega Drive

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s