A Censura é SEGA

Quando Mortal Kombat foi lançado para Super Nintendo sem sangue, os fãs de Mega Drive ficaram em êxtase. Afinal, o console da rival era praguejado pela censura enquanto a SEGA nos deixava livres para ver qualquer conteúdo mais polêmico como sangue, nudez ou símbolos religiosos.

Pelo menos, era aquilo que nós pensávamos. Pois, embora a SEGA não fosse tão puritana quanto a Nintendo, ela também censurava as versões americanas (e, por consequência, as nacionais) de alguns jogos. Esse artigo mostrará tudo aquilo que acabamos perdendo por conta disso.

Last Battle (Hokuto no Ken)

Talvez esse seja um dos casos mais conhecidos de censura no Mega Drive. O jogo Hokuto no Ken é baseado em um dos animes mais famosos do Japão, lançado por aqui sob o título de O Punho da Estrela do Norte. É uma série extremamente violenta. Explosões de sangue, decapitações e afins são extremamente comuns.

É lógico que esse tipo de coisa ia assustar a família tradicional americana. Por conta disso (e também por causa dos direitos sobre o uso dos personagens), a SEGA alterou o jogo em seu lançamento nos Estados Unidos. O título mudou para Last Battle, a história sofreu alterações significativas e, claro, o sangue foi cortado. Em vez de estourar as cabeças dos inimigos, seu personagem simplesmente os fazem voar para fora da tela. Triste.

Saiba mais em Rage Quitter’87 Regional Differences Last Battle/Hokuto no Ken (em inglês)

Diferenças entre Hokuto no Ken (Japão) e Last Battle (EUA / Brasil)

Diferenças entre Hokuto no Ken (Japão) e Last Battle (EUA / Brasil)

Alex Kidd in Enchanted Castle

Por incrível que pareça, até um jogo relativamente infantil passou pelo crivo da censura. Alex Kidd, uma das franquias mais importantes da SEGA nos anos 80, é conhecido por suas batalhas de Janken Po (o famoso jogo de “pedra-papel-tesoura”). Em vez de lutar, ele derrota os chefes e alguns outros inimigos por meio dessa brincadeira. É o diferencial da série em relação a jogos de plataforma comuns como Mario Bros.

Quando você enfrenta alguém para conseguir um item e perde, um peso de ferro cai sobre você na versão americana. No entanto, isso não acontece no cartucho japonês. Nele, o perdedor perde suas roupas e sai, nu e envergonhado, da sala. É algo sem importância nenhuma, mas os puritanos da SEGA of America não deixaram passar.

Saiba mais em Hardcore Gaming 101 – Alex Kidd (em inglês)

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DJ Boy

No início dos anos 90, os rollers (patins in-line, em que todas as 4 rodinhas ficam em linha) eram mania. Praticamente toda criança e adolescente cool tinha um e deslizava com eles pelas ruas das grandes cidades. E, como todo modismo, ele também acabou sendo representado em um jogo de videogame.

DJ Boy é um beat’em up (jogo de “porrada” no estilo de Streets of Rage) em que você comanda um personagem que precisa derrotar uma gangue de patinadores para salvar sua namorada. O primeiro chefe desse jogo, na versão japonesa, é uma típica mama americana (senhora negra e gorda), que lembra o personagem do Martin Lawrence no filme Vovó Zona. Seus ataques são peidos e arrotos.

Por conta desse estereótipo racial negativo, a SEGA não deixou que o jogo fosse lançado da mesma forma nos Estados Unidos. Resultado: a negona deu lugar a um estanho monstro cor-de-rosa.

DJ Boy - Uma negra na versão japonesa vira um monstro rosa na americana

DJ Boy – Uma negra na versão japonesa vira um monstro rosa na americana

Stormlord

Um dos grandes clássicos dos sistemas Amiga, Stormlord é um jogo de plataforma com o tema de fantasia medieval que se inspira bastante no legado de Ghouls and Ghosts.  As fadas são personagens importantes nesse jogo: você deve resgatá-las para libertar o reino da maldição imposta pela rainha.

Na versão original para computadores, elas estavam peladinhas. No entanto, ganharam um sutiã e uma calcinha no cartucho para Mega Drive. É um dos casos de censura mais emblemáticos do sistema e não tem nada de muito diferente daquilo que a Nintendo fazia em alguns jogos.

Saiba mais em NFG Games – Boobs in Video Games (em inglês) e veja detalhes do desenvolvimento do jogo em sua versão Amiga em Stormlord, for Amiga and Atari ST, Art by Mark Jones (em inglês).

Stormlord (Amiga) tinha uma fada pelada. No Mega, ela ganhou um biquini.

Stormlord (Amiga) tinha uma fada pelada. No Mega, ela ganhou um biquini.

Dragon’s Fury (Devil’s Crush MD)

Devil’s Crush é um jogo de pinball com temática demoníaca. É um dos maiores clássicos do PC Engine e foi um dos pioneiros de um gênero que seria explorado até por franquias famosas como Sonic (Sonic Spinball) e Pokémon (Pokémon Pinball). Esse sucesso todo fez com que o jogo ganhasse uma versão para Mega Drive.

Embora a qualidade não seja a mesma da original (ficou faltando algumas coisas a essa conversão), o cartucho japonês manteve todas as referências intactas: demônios, pentagramas, símbolos religiosos e satânicos continuaram todos lá. No entanto, a SEGA não permitiu que essas referências fossem mantidas nos Estados Unidos. O nome do jogo mudou para Dragon’s Fury (Devil é “diabo” em inglês) e todas as alusões ao coisa-ruim foram removidas.

Saiba mais em Hardcore Gaming 101 – Crush Pinball (em inglês).

Devil's Crush (Japão) e Dragon's Fury (EUA): Por que trocaram o símbolo?

Devil’s Crush (Japão) e Dragon’s Fury (EUA): Por que trocaram o símbolo?

Exile

Exile é um jogo de ação/RPG que bebe na fonte de Ys. Porém, o que mais se destaca nele é sua história: o personagem principal é um guerreiro muçulmano que deve destruir todos os deuses de todas as nações inimigas e trazer a paz ao mundo sob Alá (sim, é sério). Em sua aventura, que se passa no tempo dos califados islâmicos, ele tem de enfrentar e destruir maçons e divindades hindus e budistas pelo caminho. E, claro, os cristãos não escaparam dessa: os cruzados também são inimigos aqui.

Certamente, um jogo com essa história nunca seria lançado nos EUA depois do 11 de setembro. Mas, na década de 90, era preciso fazer só algumas alterações para que passasse pelo crivo da SEGA. Por conta disso, a versão para Mega Drive teve uma cidade inteira removida. Por quê? Era uma aldeia na Europa dos tempos da Inquisição e mostrava pessoas queimando na fogueira ao lado de cavaleiros com a cruz em seus escudos. E não parou por aí: em outra vila no mesmo jogo, havia mulheres nuas “tomando um solzinho”. Os nomes também foram trocados: todas as referências aos cristãos como inimigos foram substituídas por uma seita obscura para não chocar religiosos que ignoram a história de sua própria fé. Um conteúdo desses é prato-cheio para os censores.

Saiba mais em Hardcore Gaming 101 – Exile / XZR (em inglês)

Exile, na versão americana, não teve nem mulheres nuas nem cristãos condenando hereges à fogueira

Exile, na versão americana, não teve nem mulheres nuas nem cristãos condenando hereges à fogueira

Mystic Defender (Kujaku Oh II)

Mystic Defender é a continuação de SpellCaster (Master System). Ambos os jogos foram alterados a partir de uma mesma fonte: Kujaku Oh. Baseado em um anime de relativo sucesso no final dos anos 80, esse é um título de aventura que se passa no Japão feudal. A história é simples: um feiticeiro chamado Zareth tenta ressuscitar o deus maligno, Zao, usando uma jovem mulher, Alexandra, como sacrifício. E sua missão é tentar impedi-lo.

E é justamente essa Alexandra o centro da polêmica. Na versão original japonesa, ela aparece completamente nua no final do jogo. O cartucho americano, no entanto, deu a ela um vestido. Pra vocês verem como era difícil encontrar uma mulher pelada num jogo de videogame nos anos 90 (por sinal, isso continua válido para os dias de hoje).

Kujaku Oh II (Japão) tinha uma peladona. Mystical Defender (EUA), não.

Kujaku Oh II (Japão) tinha uma peladona. Mystical Defender (EUA), não.

Streets of Rage II (Bare Knuckle II)

Esse jogo dispensa apresentações. Streets of Rage II foi o primeiro cartucho de 16 Mega (2 MB) do Mega Drive e é um dos maiores clássicos do console. Nesse beat’em up, a dupla de policiais Axel e Blaze, ao lado de Max e Skate, sai pelas ruas da cidade para derrotar a organização criminosa liderada por Mr. X. Uma trilha sonora impecável somada a uma jogabilidade de alta qualidade tornam esse jogo obrigatório para qualquer fã que se preze da SEGA.

A tesoura da censura passou por aqui 2 vezes. Na versão japonesa, alguns golpes da Blaze deixam à mostra suas partes íntimas. Isso foi cortado do jogo ocidental. Outra coisa removida foi o charuto de Mr. X. Nem mesmo os vilões podem fumar nos games americanos…

Saiba mais em Streets of Rage Online – Bare Knuckle II (em inglês)

A versão japonesa de Mr. X morrerá de câncer no pulmão

A versão japonesa de Mr. X morrerá de câncer no pulmão

Street Fighter II: Special Champion Edition

Todo mundo conhece Street Fighter II, não? A velha história de Ryu, o lutador japonês que desafia os campeões do mundo todo para se tornar o melhor de todos. É um dos jogos mais populares dos anos 90 e que continua sendo sucesso até hoje.

A versão para Mega Drive tinha uma diferença em relação a de seu concorrente: a presença da tela de abertura, igualzinha a do fliperama. Ou quase. Na versão americana, os dois lutadores que aparecem são brancos. Na original, quem levava o soco era o negro, o que podia motivar acusações de racismo por parte da Capcom. É, a coisa tá chegando mais longe do que deveria.

Enquanto dois loiros brigam na versão americana, na japonesa, o negro leva porrada

Enquanto dois loiros brigam na versão americana, na japonesa, o negro leva porrada

Dynamite Headdy

A Treasure, como sempre, mandava muito bem quando o assunto era jogos de Mega Drive. Além dos clássicos Gunstar Heroes e Alien Soldier, ela também foi responsável por esse simpático jogo de plataforma, Dynamite Headdy.

Ele sofreu gigantescas alterações em sua conversão do original japonês para o cartucho que saiu nas Américas. Muita coisa foi trocada. Destaco, aqui, a substituição dos robôs em forma de bonecas de porcelana e outros brinquedos fofos por inimigos metálicos com “cara de poucos amigos”.  Pra piorar, desequilibraram a dificuldade ao trazer o jogo pra cá. Por conta disso, a versão nipônica é bem mais recomendada que a ocidental.

Saiba mais em Hardcore Gaming 101 – Dynamite Headdy

Dynamite Headdy: uma boneca de porcelana (Japão) vira um robô (EUA)

Dynamite Headdy: uma boneca de porcelana (Japão) vira um robô (EUA)

Streets of Rage III (Bare Knuckle III)

Continuação de uma das franquias mais importantes da SEGA nos anos 90, Streets of Rage III traz, de volta, a turma liderada por Axel e Blaze e sua luta para trazer a paz de volta a sua cidade natal. Esse jogo sofreu tantas alterações na conversão que é até difícil listá-las em um espaço tão curto. Por conta disso, destaco as principais:

  1. A remoção de Ash, primeiro chefão do jogo, da versão americana. Ele é um gay completamente estereotipado, que parece ter saído do grupo Village People. Temendo uma reação negativa tanto da família conservadora americana quanto do movimento gay, a SEGA retirou o personagem do cartucho que saiu nos EUA. E ele podia até ser controlado no original japonês (assim como o canguru, era um personagem secreto).
  2. A história do jogo foi completamente alterada. Ela se focava na descoberta de um novo elemento químico e em um ataque nuclear terrorista que causou milhares de mortes na cidade habitada por Axel e Blaze. A missão deles era impedir que novos atentados fossem realizados e incluía generais e até o presidente dos EUA (a última fase se passa na Casa Branca).
    Na versão americana, tudo isso foi cortado. A história se resume ao Chefe de Polícia sequestrado pela gangue de Mr. X que o substituiu por um robô, assim como fez com todas as outras autoridades da cidade.  Coisa típica de episódio de desenho animado de super-herói.

Saiba mais em Streets of Rage Online – Bare Knuckle III Gaming Differences (em inglês).

Streets of Rage III: sem bombas nucleares nem o Ash, um personagem tão foda que conseguia ofender tanto a família cristã quanto o movimento gay

Streets of Rage III: sem bombas nucleares nem o Ash, um personagem tão foda que conseguia ofender tanto a família cristã quanto o movimento gay

Considerações Finais

A SEGA, após correr o risco de fechar nos EUA por conta da investigação que sofreu pelo Congresso em 1993, também se rendia à censura em vários momentos. Embora não fosse algo tão restritivo como o que a Nintendo fazia, ainda não era algo 100% livre. Especialmente se o jogo envolvia referências a sangue, nudez ou a temas polêmicos como religião e terrorismo.

Isso não nos impediu, no entanto, de receber jogos como Mortal Kombat com sangue e seus Fatalities inalterados ou Road Rash com sua temática controversa: rachas ilegais de moto com muita porrada entre os participantes.

Outros jogos censurados

Contra: Hard Corps – Na Europa, o jogo se chama Probotector. Todos os personagens humanos foram alterados por robôs. Isso porque a lei alemã proibia jogos que permitisse a você atirar em pessoas.

Castlevania: Bloodlines – Outra modificação que atingiu a versão europeia (The New Generation). Vários inimigos foram alterados e o sangue da tela inicial deixou de ser vermelho para ficar verde(!).

Battlemania (Trouble Shooter) – Um jogo de tiro estrelado por uma dupla de meninas voadoras. A maior parte dos textos, repleto de linguagem de duplo sentido no original japonês, foi removida das versões ocidentais.

Ristar – Alterações no sentido inverso: vários personagens e inimigos que eram “fofinhos” demais no Japão ganharam uma cara de mau na versão americana. E isso inclui o próprio personagem principal, que deixou de ser sorridente.

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